Foi preciso ter de lidar recentemente com o meu avó, acamado às portas da morte, para ver nascer em mim a energia de aqui vir escrever.
Quiçá por estar desempregado e partilhar a cidade com eles, nas horas em que a chamada população activa labuta em casulos funcionais, sinto um apego crescente pelos velhos. Cada vez mais acredito que para que algo tenha interesse, basta que nos demoremos sobre esse algo. E calha bem, porque os velhos do meu bairro demoram tempo a fazer as coisas: demoram tanto tempo a viver quanto eu a olhar para eles; demoram-se, também eles, a olhar para mim. Tal como eu, gostam de pormenores.
Estamos aqui a falar de pessoas que viveram uma, quando não duas, guerras; de pessoas que conheceram outro regime político; outra realidade económica; outra ordem social. Pessoas profundamente atravessadas pelas contradições do nosso mundo. E perante tudo isso, não deixa de me espantar a pouca atenção que este mar de experiências nos provoca.
Resta que outro dos interesses que os velhos me despertam passa pelos traços de carácter que exibem despudoradamente: Interessa-me observar quais as características do ser humano que mais se cristalizam no final da vida: é claro que há de tudo.
A minha ideia não é aqui enclausurar os nossos anciões numa só definição apertada. Bem pelo contrário. Só quero é recordar que perder tempo é muitas vezes ganhá-lo.
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