Fui ontem ver o Segredo dos seus olhos, melhor filme estrangeiro em Cannes 2010. Gostei. Gosto de filmes que te dizem coisas em filigrana; histórias que te sussurram verdades.
Neste caso, este filme veio recordar-me a importância de saber virar paginas na vida de modo a poder crescer. É fácil, dito assim. Na pratica implica coisas como o saber perdoar.
Em tempos aconteceu-me, após uma ruptura amorosa, acalentar secretos desejos de prepotência, do género eu a passar numa rua rodeado de todas as glorias enquanto aquela mísera caquita me admirava lá de baixo: claro está que eu nem dava pela sua presença...
Pois circunstâncias fizeram que passados longos meses fosse confrontado a um congénere: Um tipo com todas as qualidades mas consumado por um passado inglório. Não me perguntem como nem porquê, mas a verdade é que mal nos separamos peguei no telefone com o intuito de voltar a ligar à caquita e pôr termo às hostilidades: Não atendeu mas foi quanto bastava. Nunca mais, desde então, voltei a "sonhar" com terrorismo amoroso: perdoei, aceitei, cresci.
Por detrás desta história está algo comum à maioria dos terráqueos: o orgulho
Pois se o orgulho é um mal necessario para a nossa construção, é bom não esquecer que também pode ser um perigoso inimigo da felicidade. Para mim, o orgulho é o irmão do medo e o medo raramente é o melhor dos conselheiros.
À sombra do Baobabe
quinta-feira, 26 de agosto de 2010
terça-feira, 24 de agosto de 2010
os velhos
Foi preciso ter de lidar recentemente com o meu avó, acamado às portas da morte, para ver nascer em mim a energia de aqui vir escrever.
Quiçá por estar desempregado e partilhar a cidade com eles, nas horas em que a chamada população activa labuta em casulos funcionais, sinto um apego crescente pelos velhos. Cada vez mais acredito que para que algo tenha interesse, basta que nos demoremos sobre esse algo. E calha bem, porque os velhos do meu bairro demoram tempo a fazer as coisas: demoram tanto tempo a viver quanto eu a olhar para eles; demoram-se, também eles, a olhar para mim. Tal como eu, gostam de pormenores.
Estamos aqui a falar de pessoas que viveram uma, quando não duas, guerras; de pessoas que conheceram outro regime político; outra realidade económica; outra ordem social. Pessoas profundamente atravessadas pelas contradições do nosso mundo. E perante tudo isso, não deixa de me espantar a pouca atenção que este mar de experiências nos provoca.
Resta que outro dos interesses que os velhos me despertam passa pelos traços de carácter que exibem despudoradamente: Interessa-me observar quais as características do ser humano que mais se cristalizam no final da vida: é claro que há de tudo.
A minha ideia não é aqui enclausurar os nossos anciões numa só definição apertada. Bem pelo contrário. Só quero é recordar que perder tempo é muitas vezes ganhá-lo.
Quiçá por estar desempregado e partilhar a cidade com eles, nas horas em que a chamada população activa labuta em casulos funcionais, sinto um apego crescente pelos velhos. Cada vez mais acredito que para que algo tenha interesse, basta que nos demoremos sobre esse algo. E calha bem, porque os velhos do meu bairro demoram tempo a fazer as coisas: demoram tanto tempo a viver quanto eu a olhar para eles; demoram-se, também eles, a olhar para mim. Tal como eu, gostam de pormenores.
Estamos aqui a falar de pessoas que viveram uma, quando não duas, guerras; de pessoas que conheceram outro regime político; outra realidade económica; outra ordem social. Pessoas profundamente atravessadas pelas contradições do nosso mundo. E perante tudo isso, não deixa de me espantar a pouca atenção que este mar de experiências nos provoca.
Resta que outro dos interesses que os velhos me despertam passa pelos traços de carácter que exibem despudoradamente: Interessa-me observar quais as características do ser humano que mais se cristalizam no final da vida: é claro que há de tudo.
A minha ideia não é aqui enclausurar os nossos anciões numa só definição apertada. Bem pelo contrário. Só quero é recordar que perder tempo é muitas vezes ganhá-lo.
segunda-feira, 23 de agosto de 2010
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